NOTÍCIA

Concreto de alta resistência pode ser alternativa frente ao aumento do aço

Por Tibério Andrade

Estamos vivenciando um aumento galopante dos preços dos insumos na construção civil nos últimos meses e o aço destinado ao concreto armado é recordista nessa escalada de preços. Em função disso, começa-se a cogitar o emprego de concretos de maior resistência para reduzir as taxas de aço nos edifícios de múltiplos pavimentos e, assim, reduzir o seu consumo.

Segundo informações dos projetistas de concreto armado em peças fletidas, como vigas e lajes, a elevação do fck do concreto não se reflete em uma redução significativa do aço, podendo até levar a um aumento do custo pela elevação do preço do concreto. Por outro lado, essa redução no consumo do aço pode ser significativa em peças comprimidas, como os pilares dos edifícios. A magnitude dessa redução, entretanto, irá depender de projeto para projeto, em função das características da estrutura e dos tipos de esforços atuantes.
Por outro, existem dificuldades operacionais do emprego de concretos de diferentes fcks em uma estrutura, quando se opta pela utilização de mais de um fck, com o objetivo de tirar partido nesse ganho na redução do aço em peças comprimidas. Essa dificuldade operacional está na interseção entre os pilares com as vigas e lajes, haja vista que essas regiões fazem parte do pilar. Como geralmente a concretagem das lajes são realizadas em duas etapas, a primeira referente aos pilares e a segunda às vigas e lajes, nessa segunda concretagem deverá ser utilizado o concreto de maior resistência nessas sobreposições. Portanto, deverá haver o fornecimento e lançamento de concretos com resistências distintas, dificultando a concretagem e o seu controle.

No tocante ao concreto em si, tomando como referência fcks de 60, 70 ou até mesmo 80MPa ou mais nos pilares, deve existir um cuidado maior na sua produção. São concretos em que a escolha do cimento Portland tem um papel fundamental, sendo a resistência à compressão e a demanda por água desse aglomerante crucial para atender níveis de resistências à compressão maiores para o concreto. Cimentos Portland com classe de resistência de 32Mpa, por exemplo, são totalmente inviáveis para produção desses concretos com classes de resistências elevadas, não só por uma questão técnica de não se conseguir tais resistência, como também, se conseguir tecnicamente, os consumos de cimento seriam extremamente elevados, levando a problemas sérios de retração e mesmo de reologia, principalmente no que tange a maior sensibilidade para a perda de abatimento. Para fcks de concreto acima de 70MPa, mesmo com bons cimentos, adições minerais como sílica ativa ou metacaulim passam a ser essenciais para ajudar o cimento a atender a esses requisitos de resistências, com o objetivo de não elevar demasiadamente o consumo de cimento.

Um outro ponto com relação a esses concretos é a tendência da utilização de percentuais de aditivos maiores e mais potentes no que se refere ao “corte de água”. Isso se faz necessário devido ao emprego de relações água/cimento mais baixas para se conseguir níveis de resistências mais elevadas nos concretos, sem incrementar o consumo de cimento a níveis proibitivos sobre o ponto de vista técnico.

O emprego desses concretos com a intenção de reduzir o consumo de aço em edificações, portanto, são mais onerosos, devendo ser levado em conta esse incremento na avaliação dos custos. Além disso, são concretos que podem ser mais sensíveis à perda de abatimento durante o transporte e lançamento, principalmente quando, por problemas operacionais, existe uma demora excessiva nessas etapas. Somando-se a todos esses aspectos citados acima, existe a necessidade da quebra de paradigmas em toda a cadeia, seja os projetistas, as construtoras como as concreteiras para que, em conjunto, possam utilizar esses concretos com fcks, que nunca foram empregados sistematicamente na RMR. Portanto, a adoção pelas construtoras de fcks maiores para o concreto, com o intuito de reduzir o consumo de aço, parte primeiramente de um estudo e avaliação do projetista de quanto será essa redução de aço, que deverá ser analisado de projeto para projeto. A partir dessa informação, a construtora deverá fazer uma avaliação da redução do custo, levando em consideração o aumento do custo desse concreto e ponderando as dificuldades que poderá enfrentar no seu emprego.

Tibério Andrade é professor da Universidade Federal de Pernambuco.